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O que leva um jovem a desistir da escola?

A lista de causas para a evasão escolar na adolescência é extensa e engloba problemas que vão desde fatores externos, como uso de drogas, até questões ainda não resolvidas pelos gestores de educação, como a qualidade do ensino.

De cada 4 adolescentes de 15 a 17 anos, um não está mais na escola. Nesse ritmo, Brasil vai demorar 200 anos para universalizar o ensino médio

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Quase 3 milhões de adolescentes entre 15 e 17 anos devem abandonar a escola ou ser reprovados na série letiva até o final deste ano, segundo dados compilados pelo economista Ricardo Paes de Barros, do Instituto Ayrton Senna, em relatório divulgado pela plataforma Gesta (Galeria de Estudos e Avaliação de Iniciativas Públicas), lançada recentemente pela Fundação Brava, e feito em parceria com o Instituto Ayrton Senna, Instituto Unibanco e Insper.

Isso significa que apenas 60% dos jovens nessa faixa etária conseguem terminar o ensino médio com no máximo um ano de atraso. No atual ritmo, segundo o estudo, o Brasil deve demorar cerca de 200 anos para fechar essa lacuna na educação formal de seus jovens.

A lista de causas para a evasão escolar na adolescência é extensa (de acordo com o levantamento bibliográfico, são 14 itens) e engloba problemas que vão desde fatores externos, como uso de drogas, até questões ainda não resolvidas pelos gestores de educação, como a qualidade do ensino.

“Eles não estão saindo da escola por causa de uma decisão irracional, os jovens também estão saindo por uma decisão racional e podem estar corretos em pensar que a escola não vale a pena”, afirma Marina Gattás, coordenadora de projetos da Fundação Brava.

Segundo levantamento bibliográfico do relatório, 60% dos jovens apontam a necessidade de trabalhar como um fator relevante para o abandono da escola. No entanto, geralmente, essa não é a causa determinante para desistir dos estudos. Só que, uma vez desmotivado por outra questão, o jovem tende a priorizar o trabalho  — se os estudos forem um empecilho, a opção é deixar a escola.

Como resolver? “Disponibilizar horários alternativos para o ensino e proporcionar condições para uma transição gradual da escola para o mundo do trabalho são medidas que podem auxiliar na resolução desta questão”, exemplifica a pesquisa.

O estudo aponta que a grade curricular escolar muitas vezes é incompatível com a carga de responsabilidades  que os adolescentes podem assumir conforme os anos passam ou com o ritmo de vida deles.

Logo, “uma escola rígida, por melhor que seja naquilo que oferece, irá atender aos interesses de apenas uma fração dos jovens”, diz o estudo.  “Quanto mais flexível for a escola, mais fácil é a adequação desta aos interesses e às motivações de seus alunos”.

Uma das propostas apresentadas pela pesquisa, por exemplo, é mudar a lógica de avaliação nas escolas para um modelo trimestral ou semestral, que facilitaria a adaptação do aluno em seus diferentes contextos de vida. Outra sugestão é proporcionar a opção dos próprios alunos montarem sua grade de aulas.

Esse tipo de abordagem beneficiaria, por exemplo, o grupo de adolescentes que engravidam. Mais de meio milhões de meninas entre 10 e 19 anos se tornaram mães em 2015, segundo dados preliminares divulgados em maio pelo Ministério da Saúde.

O relatório lembra que a maternidade nesta faixa etária acaba ocupando muito do tempo da jovem mãe e isso demanda uma série de ações específicas da escola para permitir a continuidade dos estudos, como reprogramação das obrigações escolares e até a possibilidade dos filhos serem trazidos para a escola.

A percepção de que o ensino oferecido pela escola é de baixa qualidade é outro fator apontado pela pesquisa como relevante para a evasão escolar. “Afinal, porque um jovem iria se engajar numa atividade que não é capaz de efetivamente promover a transformação para a qual foi desenhada?”, questiona o estudo.

Segundo estudos citados pelo relatório, metade dos jovens aponta a falta de interesse como a principal causa para o seu desengajamento com os estudos. E essa percepção, em certa medida, advém da ideia de que a educação formal tem um impacto menor para a vida adulta do que a gerações anteriores.

Nesse sentido, afirma o estudo,  o currículo escolar precisa fazer sentido para o projeto de vida de cada aluno. Um caminho para isso, diz a pesquisa, é oferecer trilhas curriculares que “acomodem a diversidade de interesses da juventude”.

O clima do ambiente escolar também influencia a decisão do jovem de prosseguir ou não com seus estudos. “Quanto mais o jovem percebe que a escola e as atividades oferecidas ali foram idealizadas pensando nele e para ele e, no limite, entenda que a escola é dele, maior será sua motivação para se engajar e menores serão as chances de abandono e evasão”, afirma o relatório.

Outro aspecto que afeta a continuidade de um adolescente na escola é a violência dentro e fora de sala de aula. Segundo um levantamento recente do Instituto Locomotiva, 39% dos alunos da rede pública do estado de São Paulo já foram vítimas de alguma tipo de violência na escola. Tanto que cinco em cada dez  afirmam que não se sentem seguros dentro da instituição de ensino que frequentam.

De acordo com 27% dos alunos, a agressão verbal é o problema mais comum. Bullying (13%), agressão física (9%), furto e roubo (6%) e discriminação (3%) foram citados em sequência.

O relatório calcula que o Brasil perde, por ano, o equivalente  a cerca de 100 bilhões de reais com a evasão escolar. O custo para resolver o problema seria menos  do que a metade disso: 33 bilhões de reais.